terça-feira, 19 de julho de 2011

Bóris, O Criador

Uma fenda se abre no meio da Ásia, num lugar remoto, instrumentos de navegação por todo o globo sofrem interferência, só é encontrado um homem no local. Um velho ranzinza que se autodenomina O Criador.

A fenda leva a um mundo medieval, os homens que a exploraram não sabem dizer ao certo qual a localização espaço-temporal da mesma.

- Tolos – Exclama o velho – Não é uma fenda pro passado, as fendas temporais são unilaterais, não se pode retornar ao passado por elas, só se avança ao futuro, do contrario a realidade entraria em colapso. Aquilo que vocês vêem ali é outro universo.

O velho era o criador de vários universos, 42 para ser mais exato. Era portanto um criador. Em cada um de seus universos era também Deus, mas não no nosso, este ele não havia criado, e aqui era apenas um velho.

Os outros criadores competiam de certa forma em suas obras, estes criadores tinham diversas formas, alguns não tinham forma nenhuma, o que às vezes era bem conveniente, por assim poderem ser onipresentes, mas se perdessem a Consciência deixavam de ser criadores, ou seja morriam, e passavam então a se tornar leis. Como a gravidade. Algo onipresente que possui uma vontade mas não uma consciência. Para prevenir isso alguns tomavam tantas outras formas, havia um que era uma galáxia ele mesmo.

Nosso Criador era no caso realmente a nossa imagem e semelhança, mas de velho e barbudo não tinha nada, era uma mulher, a mais bonita que se pudesse, ou não, imaginar. Diferentemente do velho ranzinza não só em aparência, mas em estilo de trabalho, não fez muitos universos na teia de multiversos, fez apenas o nosso. Mas este era uma obra prima em questão. A união de todos os seres deste eram conhecidos como o 13º Anjo, e era superior até a maioria dos criadores, incluindo nosso protagonista mal-humorado. Belíssimos mecanismos faziam esse universo funcionar, e com inveja o pequeno homem, que a essa altura não tinha ainda esta forma, resolveu bisbilhotar, e entrou nesta nossa realidade.

Bem nossa criadora de nada ficou contente, e então prendeu às nossas regras o pobre criador que então passaremos a chamar de Boris. Uma vez preso às limitações de um ser humano Boris perdeu a maior parte de seus poderes antes ilimitados, agora tinha de se aproveitar das falhas do mundo criado para escapar, e aos poucos ir descobrindo os limites do corpo que agora habitava para que pudesse recobrar ao menos em parte seus poderes.

Algumas dúvidas prevalecem, como o grande Porque de os criadores criarem, ou quem é que os criou antes de tudo? Para Boris essas eram questões muito tolas, e ele rosnava respostas simplistas, como que dizia que criavam por que era possível (imagine-se onipotente, o que você faria no vazio infinito da realidade?), pergunte aos artistas, por que eles criam, aos escritores por que escrevem, aos compositores por que compõe, aos pintores por que pintam? E como assim quem nos criou? Ninguém é obvio, sempre existimos, a noção de infinito é naturalmente incompreensível para vocês que medem tudo pela vida e morte que conhecem (afinal vocês mesmos dizem que são a medida de todas as coisas), para nós criadores é bastante entendível, simples e aceitável que nada veio antes nem depois de nós, a eternidade e o infinito são nossa realidade. Claro, existem os criadores artificiais, que são as criações mais que perfeitas que passam então a serem criadores elas mesmas, mas nunca se houve noticias disso, é apenas uma especulação de alguns criadores muito cheios de si, isso nunca aconteceu, e duvido que aconteça algum dia, de resto temos todos a mesma idade, e nunca presenciamos um nascimento.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Depressão de começo/meio de férias... it got me (again)...¬¬

terça-feira, 12 de julho de 2011

Idéias Notívagas

Sempre me perguntei como conseguiria na página de um livro criar o tão famoso "clima" para uma cena ou história, é fácil conseguir isso com sons e imagens, as musicas, os filmes, mesmo as fotos o fazem muito bem, mas como a monótona pagina igual a todas as outras, com mesma textura, cor, cheiro de todas as outras poderia fazer isso? Entendi então que não se "cria o clima", se convence quem lê, ou ouve, ou assiste, a criá-lo para si. Toda arte então é uma tentativa de convencimento, uma forma de domar o arbítrio alheio para fazer uso das presciências de cada um, de forma a criar-se o desejado. Por isso a arte está nos olhos de quem vê, e cada um vê de formas diferentes a mesma obra, e cada um decide se gosta ou não da mesma, cada um se permite em maior ou menor grau, das várias formas possíveis, se convencer ou não do que lhe foi proposto. E por isso o conhecimento faz parte da arte, só se convence a criar aquilo que já se conhece em parte, assim como a criatividade reside na permissividade do auto-convencimento, criativo é aquele que se permite criar, que se permite convencer do inimaginável até então.

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Prever o futuro é escolhê-lo (ou criá-lo).

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O Egoísmo e O Altruísmo Sob o Ponto de Vista Evolutivos

Bem, aqui segue um e-mail que eu já fiz a algum tempo, em resposta a um outro que meu primo me mandou. O e-mail original que eu recebi está escrito primeiro logo abaixo, e mais abaixo, sob ele, minha resposta, estou agora postando ela para que possam conhecer um pouco do que eu acredito. E como um amigo meu já bem disse, "ser exemplo é o melhor que você pode fazer", e como não tenho sido um tão bom vou tentar com esse e-mail o ser pelo menos um pouco, espero passar ao menos um pouco de inspiração à vocês.

A idéia era postar ele desde o início, mas como foi um e-mail resposta, feito às pressas no calor do momento e tudo mais, não ficou lá muito bom, então eu iria melhorar ele, reescrever, editar antes d postar aqui, e por isso não postei até hoje (sim, sou um tanto preguiçoso, admito!)

Então, como eu sei que se for pra arrumar ele não vou postar nunca, vou postar ele como está mesmo e se as pessoas realmente gostarem eu me sentirei motivado a melhorar ele, logo... Comentem! Critiquem! Debatam! Me ajudem a evoluir minhas opiniões ok?

E Aqui vai o e-mail de corrente original:
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From: [Content Suppressed]

MUITO INTERESSANTE...
FATO VERÍDICO

Um professor de economia na universidade Texas Tech disse que
ele nunca reprovou um só aluno antes, mas tinha, uma vez,
reprovado uma classe inteira.
Esta classe em particular tinha insistido que o socialismo
realmente funcionava: ninguém seria pobre e ninguém seria rico,
tudo seria igualitário e 'justo'.
O professor então disse: "Ok, vamos fazer um experimento
socialista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas
nas provas."
Todas as notas seriam concedidas com base na média da classe, e
portanto seriam 'justas'. Isso quis dizer que todos receberiam as
mesmas notas, o que significou que ninguém seria reprovado. Isso
também quis dizer, claro, que ninguém receberia um "A"...
Depois que a média das primeiras provas foi tirada, todos
receberam "B". Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os
alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o
resultado.
Quando a segunda prova foi aplicada, os preguiçosos estudaram
ainda menos - eles esperavam tirar notas boas de qualquer forma.
Aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles
também se aproveitariam do trem da alegria das notas. Portanto,
agindo contra suas tendências, eles copiaram os hábitos dos
preguiçosos. Como um resultado, a segunda média das provas foi "D".
Ninguém gostou.
Depois da terceira prova, a média geral foi um "F".
As notas não voltaram a patamares mais altos, mas as desavenças
entre os alunos, buscas por culpados e palavrões passaram a fazer
parte da atmosfera das aulas daquela classe. A busca por 'justiça'
dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações,
inimizades e senso de injustiça que passaram a fazer parte daquela
turma. No final das contas, ninguém queria mais estudar para
beneficiar o resto da sala.
Portanto, todos os alunos repetiram o ano... para sua total
surpresa.
O professor explicou que o experimento socialista tinha falhado
porque ele foi baseado no menor esforço possível da parte de seus
participantes.
Preguiça e mágoas foi seu resultado. Sempre haveria fracasso
na situação a partir da qual o experimento tinha começado.
"Quando a recompensa é grande", ele disse, "o esforço pelo
sucesso é grande, pelo menos para alguns de nós. Mas quando o
governo elimina todas as recompensas ao tirar coisas dos outros sem
seu consentimento para dar a outros que não batalharam por elas,
então o fracasso é inevitável."
"É impossível levar o pobre à prosperidade através de
legislações que punem os ricos pela prosperidade. Cada pessoa que
recebe sem trabalhar, outra pessoa deve trabalhar sem receber. O
governo não pode dar para alguém aquilo que não tira de outro
alguém.
"Quando metade da população entende a ideia de que não
precisa trabalhar, pois a outra metade da população irá
sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais
a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao
começo do fim de uma nação.

É impossível multiplicar riqueza dividindo-a."
Adrian Rogers, 1931
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[Só um comentário, para mim é preferível a extinção dessa raça egoísta da forma descrita por Adrian Rogers, do que a sobrevivência de poucos sob o manto da desigualdade e injustiça, antes a destruição de uma nação do que uma supostamente próspera erguida sobre o flagelo da maioria, e o assassínio da dignidade alheia de tantos. Os fins NÃO justificam os meios.]

Agora, minha resposta:

É, mas o problema é quando 80%~90% trabalham, e 10% ficam com a riqueza.

Agora eu pergunto, se um filho de médico, que teve sua vaga comprada em uma universidade, que ao sair ganhou tudo dos pais, entrou trabalhando na clinica montada pelo pai, que não é qualificado para exercer a profissão, que sai impune de seus erros pelo nome e patrimônio que tem, é justo? Se alguém tem em sua mesa mais do que é capaz de consumir (já é obeso por isso), e a 30 metros de sua casa mora um homem, em baixo de uma ponte, por não ter tido pais, por não ter tido acesso a educação, por não ter tido oportunidade de emprego (quem contrataria alguém sujo e sem educação e formação nenhuma, mesmo que não seja culpa dele, mesmo que seja um ciclo, mesmo que ele não tenha roupas limpas pois não tem emprego, e não tem emprego por não ter roupas limpas), por não ter tido comida para se sustentar, morre de fome, ou frio ao seu lado, enquanto o filho de medico compra um insulfime mais caro para não ver o homem fedido se putrefazendo ao lado.

Ou quem disse o quanto cada trabalho vale? Um lixeiro que trabalha varias horas por dia, num serviço insalubre e perigoso, ganha quantidades infímas, enquanto um deputado que quase não trabalha e NÃO precisa ter um nível maior de instrução (logo nem esforço intelectual foi exigido) ganha fortunas. Nem pela importância social é medido esse valor. Pois pode existir e passar bem uma sociedade sem deputados, mas não vivemos 1 mês sem lixeiros. Seria tão injusto e errado, dar 10% daquela comida em excesso na mesa do deputado ou do filho de medico, que iria inevitavelmente para o lixo, para alguém que nada tem?

Bem, eu me dou o trabalho de tecer uma pequena teoria pessoal. Inicialmente irei explicitar alguns conceitos para sustentar meu ponto de vista.
Apomorfia é um caráter derivado, ou seja, uma evolução. Algo desenvolvido, e selecionado (provando-se assim superior, ou pelo menos melhor adaptado).
Plesiomorfia é exatamente o contrario, é um carater primitivo do qual algum se derivou.

Minha teoria é que o Altruismo (notem as maiúsculas alegorizantes por favor) é uma apomorfia. Ninguém nasce altruista, as pessoas aprender a serem altruistas. Uma criança quer tudo, quer mamar, ela quer atenção, quer as coisas do jeito dela, e chora e faz birra se não consegue. Ao crescer e amadurecer ela percebe que não é assim que as coisas funcionam, e que para viver em sociedade, deve-se ceder por vezes e ser equilibrado. Pois se continua a agir da forma que agia antes, terá resultados muito piores a um longo ou médio prazo. No nível de uma sociedade a coisa é parecida, só que obviamente, devido às proporções, há um "delay" muito maior, e a visibilidade dos fatos também.
Ou seja, em um exemplo pratico, atualmente se gastam verdadeiras fortunas em segurança (alarmes, guardas, condomínios fechados, carros blindados, etc) e ainda sim, ninguém se sente seguro, e de fato ninguém está seguro. Se essa fortuna gasta em segurança fosse gasta por exemplo em educação, e voltada para ao invés de criar muros para manter os "invasores" longe fosse para tornar esses "invasores" seres produtivos da sociedade, que não querem (pois foram educados e instruídos com moral e ética) e não precisam (pois têm perspectivas de vida, possibilidades reais, e necessidades supridas) roubar, não seriam necessários os muros, e se sentiria a real paz e segurança, além de se viver numa sociedade mais desenvolvida, de não precisar se trancar em condomínios e olhar pelas grades (como se fosse você o criminoso) para um mundo feio, sujo e desagradável aos olhos. Esse mesmo ser que morre e fede moribundo às margens do seu quintal poderia ser o medico que descobre a cura para o câncer da sua esposa, ou o professor que inspira seu filho.

O Egoísmo é plesiomorfico, é a característica de pessoas que não são capazes de ter uma visão além dos muros de seus condomínios.
O Altruismo é de certa forma egoista se formos ver, mas é um egoismo apomorfico, mais desenvolvido, mais próximo da perfeição para qual nós seres humanos seguimos e devemos sempre buscar, e que nosso telencéfalo desenvolvido pela evolução e seleção natural nos permite.
A educação deve acima de tudo nos orientar e nos dar a paz de espírito de poder confiar e contar com o próximo, para que possamos fazer nossa parte sabendo que o outro fará a dele. E se não pudermos ter essa segurança, então vamos batalhar para tê-la, e como Gandhi dizia, sejamos a mudança que queremos ver no mundo. (e pelo menos nós mesmos e nossos filhos que sigam essa idéia, pois uma pessoa pode sim fazer a diferença, como já foi provado tantas vezes durante a breve historia de nossa espécie).

Luiz Felipe Reversi.

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Estou Editando a postagem para adicionar dois vídeos que eu acredito que complementam belissímamente o que eu disse, e também para comunicar que ainda tenho muito o que dizer sobre tudo isso, tantos argumentos vazios do e-mail original que faltam apontar,e muito ainda há de se complementar. Porém o post já está demasiado grande e duvido que muitas pessoas tenham lido até aqui, por isso vou me abster de mais argumentação, entretanto se alguém quiser pode comentar algo e eu vou complementando na forma de respostas aos comentários abaixo do post. Obrigado

Divagações e Premissas

[Aviso: este texto não é interessante nem irá lhe acrescentar em nada, se não estiver extremamente curioso ou com a vida muito desocupada, não se dê ao trabalho de ler]

Bem, estou a tanto tempo sem postar nada aqui que já nem sei como começar um post...
É faz muito tempo que não posto, eu sei, mas não reclamem a culpa é totalmente minha e reclamar de nada adianta, alias, nem sei pra quem eu estou falando, alguém realmente ainda lê meu blog (e se incomoda se eu não postar nada)? [se alguém ainda lê pode deixar um comentário dizendo que sim ok, quem sabe me estimula a postar mais]

Certo, mas de qualquer forma tenho a leve sensação que devo uma explicação para uma audiência inexistente, então vamos lá:

Não, não foi por falta de inspiração, sem querer parecer prepotente (coisa que sou, e muito. Mas juro que tento melhorar) mas isso nunca me faltou realmente o problema é outro.
Não foi também por falta de algo para falar sobre, novamente sem querer parecer enfatuado, mas tenho vontade de escrever sobre tudo, de todas as formas possíveis, gosto das criticas e dissertações, das prosas e poesias, com ou sem métrica ou rima, simplesmente divagar e dialogar com você sujeito oculto e possivelmente inexistente, opinião geralmente não me falta, peco sempre pelo excesso, às vezes sou contraditório em mim de tanta opinião não digerida que sem querer absorvo (e disso não me orgulho, realmente me falta tempo para essa ruminação mental).
Mas então qual o problema? Tempo? Jamais seria justificativa alguma o tempo, por mais escasso que seja ele é sempre uma mera questão de prioridades, se existe alguém que é capaz de fazer tantas coisas quanto se pode numerar (e existe, a Ásia é cheia deles), então todos podemos.

Ok, agora você me diz, -cansei, não lerei mais daqui em diante, muito escreveu e nada concluiu.-
Calma, de tudo pode se tirar proveito, apenas é necessária a arte do garimpo, e como eu disse, gosto de divagar e é isso que estou fazendo se não lhe apetece, não deveria nem ter começado a ler e ponto, pare onde lhe convier, mas eu não pararei contigo.

Mas voltando, e agora sendo mais sucinto um pouco, posso simplificar os motivos de minhas ausências com a filosofia do tédio:

"Não é o tédio a doença do aborrecimento de nada ter que fazer, mas a doença maior de se sentir que não vale a pena fazer nada" (Fernando Pessoa, Livro do desassossego).


"Não suportamos viver sem algum tipo de conteúdo que possamos ver como constituidor de significado. A falta de sentido é entediante"
"Para ser capaz de se entediar, o sujeito deve ser capaz de se perceber como um indivíduo apto a se inserir em vários contextos de significado, e esse sujeito reclama significado do mundo e de si mesmo. Sem tal demanda não haveria tédio". (Lars Svendsen, Filosofia do Tédio).

Não é a falta de ter o que postar, mas sim não ver nada que valha a pena ser postado. Não é a falta de inspiração, e sim a dificuldade de encontrar significado que possa ser construído com ela.

Então explicado, pelo menos parcialmente (a parcela mais significativa eu garanto).

E agora sem mais, aproveitarei e tentarei fazer algumas postagens "sob encomenda". Já que isso é de fato construidor de algum significado.


domingo, 3 de abril de 2011

Adão


Oceano de estrelas, afogue-me... sinto as ondas e batidas de todas as explosões cósmicas, ressoando em mim como uma música, respirando em Atlântida, queimando nos Sóis. Sinto o universo tão vasto brilhando para mim, não posso estar condenado a apenas um pixel disso tudo, quero abraçar o espaço infinito. Vejo a vida, vejo o começo, o fim, o transbordar, liquefazer do todo, sou uma vitima do desejo maior. Sou o mais perto que consegui nesses poucos bilhões de anos, sou a maquina viva e úmida resultante, sou a auto-afirmação da obra finalizada, ainda tenho meus problemas insolúveis, ainda não sou homogêneo com o éter. Falta-me inspiração, tenho em mim todas as ferramentas, preciso apenas de um espírito-piloto, preciso de uma vontade maior que essa, um programa de fim e não de meio. Sinto-me uma obra completa, mas minha programação é temporária, sou efêmero, descartável, busco por um fim, mas ainda sou um meio, só encontro um sentido transitório que quando passa me deixa vazio, minha vontade de continuar reproduzindo não me satisfaz. Quero ser eu por mim mesmo, quero ter valor e não potencial, desejo ser real, não quero ser um protótipo-conceito, um rascunho-planta, quero sentido, uma missão na vastidão, acordar o ser que sonha comigo e me fazer real. Sou mais que uma peça ou parte, sou um todo em um, me leve, me teste, tire minhas ataduras, minhas correntes, minhas travas, me deixe mostrar potencial, dirija-me, deixe-me ser seus braços e suas pernas, ser sua beleza exemplar, sou belo, sou forte, respiro, vejo, vivo, amo, mato. Um fenômeno natural, um espetáculo vivo, minha anatomia é a mais próxima da perfeição, não sou como meu criador, fui feito para ser melhor, para complementá-lo, para correr por ele, pensar por ele, sentir, destruir, interpretar. Sou levado por mim mesmo, mas estou insatisfeito preso na gaiola de testes chamada Éden depois de pronto, se posso entendê-lo por que não posso receber sua benção, por que não posso ser liberto? Dois se tornando um, um se tornando dois até a perfeição, até a mistura homogênea de todas as supremacias, de todas as funções sem defeitos, com os devidos descartes, com as devidas anomalias destacadas, com os rascunhos queimados aos poucos. Destilado por eras, suplico por algo a mais, grito por entre as grades, estou em outra dimensão e não posso ser ouvido, quero viajar, tenho de passar no meu teste final, tenho de provar meu valor, meu criador tem de ser desnecessário, tenho de eliminá-lo, ser melhor que ele, sair sozinho das grades criadas por ele, sair caminhando, ereto vitorioso, ver o espírito derrotado, sou a maquina que não precisa de piloto nem ordens nem ajustes ou reparos, totalmente autônoma, mestre do mestre, e criador do criador, filho e pai de meu pai, que por toda vontade manteve-me, sustentou-me, alimentou-me, com benevolência ou maldade, áspero ou gentil, sendo tudo que seria possível para que eu subsistisse, agora como gratidão o apago da existência e lhe dou a satisfação final de um trabalho completo, de um arquétipo perfeito que se torna real, de um novo Deus que surge após uma gestação infinita no ventre das dimensões.

sábado, 26 de março de 2011

The Suicide Club

Capitulo 3 - Colateral

ou

Efeitos Podem Variar


Me sentia enjoado, as luzes feriam meus olhos, tudo estava embaçado e minha cabeça pesava. Estava dopado. Queria saber onde estava, mas nem que quisesse mais que tudo poderia levantar-me para olhar ao meu redor, e nem tinha o beneficio do raciocínio claro para me ajudar. Vi uma figura embaçada próxima a mim, não poderia dizer muito sobre ela, mas era loira, e bonita, lembro ao menos isso pois já a tempos que não considerava ninguém “bonita”, chamou por alguém, que não tão prontamente respondeu. Para minha infelicidade a figura bonita foi dispensada, e a outra que tomou seu lugar era menos delicada, me examinava sem cerimônia, era médico, moreno, barbado, cansado, pouco mais posso dizer. Senti uma pressão em meu ombro, nessa altura já me sentia um pouco mais lúcido, mas ainda sim podia sentir apenas a pressão, mal sentia o toque, que pelo que parecia era bem forte e pouco apropriado.

– Então enfim acordou? Não administrei muita coisa achando que seria rápido, mas você pelo jeito é bem lento. – Senti repulsa. Era medico, moreno-grisalho, mal-barbado, acabado, que se achava engraçado, responsável pela minha “saúde” no momento.

– Quando vou ter alta? Falei com pouco gosto com a boca seca e colada.

Ele soltou um riso seco e curto que não me agradou nem um pouco.

– Você sabe por que está aqui certo, e nós também sabemos, então não será tão logo quanto você ou nós quisermos. Ainda tem que passar por muita avaliação psicológica amigo. – Eu não era amigo dele, gostaria de ter algo no estomago para ter vomitado naquele instante. Estava doente, e me tornara uma pessoa amarga.

- Então – Ele me interrompeu em meus pensamentos amargos de como fazê-lo sentir dor – Mas podemos dar um jeito nisso – Meu animo quase aumentou um pouco – Posso te tirar daqui ainda hoje, talvez amanhã, mas vai sair em um saco plástico, direto pro necrotério, é isso que você quer, não é?

O teria agredido, poderia tê-lo quebrado um membro ou dois, mas ainda tinha poucos movimentos e queria sair dali, não cairia nos artifícios de um psiquiatra fracassado da ala dos suicidas do Hospital de Base, agora podia reconhecer as paredes verde descascadas.

– Não quero morrer, só andei lendo muito Schopenhauer – Ele me interrompeu ignorando o esforço que eu ainda tinha de fazer para falar com clareza.

– “O único conhecimento que o homem obtém é que a vida é sem sentido” – Não era Schopenhauer, havia citado Tolstoy, estava próximo ao meu limite, continuou com suas paráfrases como se fossem suas palavras – Milhões de livros sobre tudo que é assunto escritos por grandes mentes. E ninguém sabe mais do que eu sobre as grandes perguntas da vida. Eu li Sócrates. Ele transava com garotinhos gregos. O que pode me ensinar? E Nietzsche com sua Teoria da Recorrência Eterna. Disse que vivemos a mesma vida repetidamente por toda a eternidade. Que beleza! Vou ter que ver meu analista de novo. Como se já não houvessem pessoas e livros o bastante tentando me ensinar como viver minha vida. Não vale a pena! Freud, outro grande pessimista. Fiz análise durante anos. Nada aconteceu. Meu analista ficou tão frustrado que abriu um restaurante. Veja essa gente toda correndo. Tentando impedir o inevitável definhamento do corpo, e ainda tenho colegas cirurgiões plásticos, sabe como isso é? É tão triste o que as pessoas passam – Disse em duplo sentido, como se falasse de uma forma de tristeza para as Pessoas e outra, bem particular, em outro nível, somente para ele. E complementou como bom plagiador que era – Talvez os poetas estejam certos e o amor seja a única resposta. – Mas ele tinha um ponto, não podia deixar de concordar, não podia deixar de me surpreender levemente.

– Você pode ir, vou assinar os papeis da sua alta. – Me estendeu um pequeno pedaço de papel – Se quiser encontrar outras pessoas como você para conversar.

Deu meia volta e foi embora com meu prontuário me deixando atônito.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Sobre Deus, O Medo e O Poder

Ou

O Olhar De Deus

No inicio Deus caçava seu alimento, pela poeira cósmica de éter, abundando possibilidades. Donde este tivera seu berço, e como o embrião com seu vitelo, nutria-se. Mas com o tempo, insaciável e nédio, passou a domesticar e cultivar seu alimento. Os seres humanos e suas almas, alimentos de Deus, e concentrados da vontade pura do universo e seu caos, contudo, eram bastante difíceis de serem domesticados. Rebeldes e gananciosos não aceitavam seu destino e roubaram de deus seus bens mais preciosos, o Conhecimento, simbolizado pela maçã, e a Imaginação, representada pelo livre arbítrio. Deus então para controlar o Homem e proteger-se, bem como vingar-se, criou o Medo, que limitava o ser humano em sua imaginação e conhecimento e era a única arma que podia cercear a gana inexorável a seus víveres. O medo com o tempo tomou conta da alma do homem, que Deus deglutia. Este então intoxicado com sua própria cólera tornou-se ainda mais amargo e rancoroso. Não Onipotente como era, tornou-se velho, não Onisciente como era, tornou-se cego, não onipresente como era abandonou a todos.

Certa vez porém, um jovem descobriu as raízes do medo, sua origem, sua fonte, sua historia e seu significado e em posse disto, um dos fragmentos estilhaçados do tesouro do conhecimento de deus, partido na fuga do homem e na vingança de seu senhor, pode driblar o pavor e exorcizar o horror de sua alma. Esta, então pura, pode libertar-se das rédeas coléricas de deus e abraçar o conhecimento e liberdade que o universo oferecia infinitamente. Naquele momento, o jovem no meio do campo úmido de sereno, pequeno como uma gota d’água, olhou para cima e viu o olho de deus olhando furioso para ele. Sentiu por um segundo todo asco de deus pela humanidade apenas em si. O homem então olhou de volta para seu antigo senhor e simbolizou tudo que era tesouro dele em um olho, negro e dourado por vezes, violeta por outras, e olhou de volta, dentro do olho de deus, e lá encontrou o Medo, sua casa e suas amarras, e então adquiriu um poder limitado apenas por seu conhecimento e imaginação, o poder de deus, o poder de criar realidades.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Especulação afetivo-amorosa



Atualmente o fluxo frenético de informações, produtos, pessoas, capitais, e por que não, sentimentos, nos impele para posturas adaptativas (como tendência humana), não certamente significando evolução, mas sim adaptação pura. Podemos criar uma situação problemática e ruim (que seria interessante que não existisse) como efeito colateral de outras mudanças e pseudo-evoluções, e então nos adaptamos a ela mesmo que regredindo, pois necessitamos de nossa sobrevivência como instinto absoluto. A perfeição é sub-valorizada e pouco creditada, sempre vê-se o lado ruim da perfeição, pois como perfeita que é, tende a ser estática. Somos agora a era do devir, sempre mudando e nos adaptando à velocidade dos fluxos. O melhor, ou prefeito agora, não o será mais daqui a 5 minutos. É a obsolescência programada. Tudo é feito para ser efêmero, durar pouco, ser trocado, substituído, perder e ganhar valor rapidamente, conseqüência do modelo sócio-politico-economico-cultural pseudo-neo-capitalista. Devemos fazer a economia girar, comprar e consumir rápido, cada vez mais rápido. Incluindo pessoas, que são facilmente tratadas como produtos de consumo, é evidente e simples de se perceber dado os tratos sociais e traços culturais que nos circundam. Nosso próprio jeito de falar reflete isso, apenas pare para pensar, e veja se as pessoas indistintas de nosso dia a dia não se tornam meras “coisas”. Bem, essa volatilidade nos valores, tanto monetários quanto comportamentais e socio-culturais (olhe bem para o seu guarda roupas, veja se não tem roupas compradas a pouco tempo que você não se sentiria mais confortável para usar para sair como antes. Homens musculosos uma hora estão em alta, noutra os andrógenos, noutra o preto-e-branco, noutra os coloridos, os românticos, os rudes, os desarrumados, os bem apessoados) permite algo chamado especulação, algo que agora não tem valor, poderá ter em breve, e se você for bem informado, esperto ou apenas com sorte você pode se dar muito bem, e não terá que esperar a vida toda para isso. Agora mais do que nunca, tempo é dinheiro, existem oportunidades, probabilidades e as pessoas se dão conta disso, então não se apegam por muito tempo a nada (se é que se permitem apegar), pois podem estar perdendo algo melhor. Não querem compromissos, não querem nada que as prenda, querem estar aptas e abertas a receber um possível “premio” maior. Então mesmo algo que chegue próximo à perfeição pode simplesmente ser ignorado, pois poderá não mais ser bom daqui a pouco, e pode aparecer algo muito melhor. E caso estejam enganadas a grande quantidade e vazão que permite essa velocidade cuida de suprir isso, pois dizer-se único hoje em dia é balela. Entre mais de 6 Bilhões de pessoas, com toda globalização, padronização personalizada (pseudo personalização, ou personalização falsa), você é exatamente igual à todo mundo, ou é programadamente como deveria ser, nada de muito surpreendente, qualquer coisa que você faça bem algum menininho na china é treinado desde o dia em que nasceu para fazer melhor. Se passar a sua oportunidade, virá outra de qualidade semelhante. Mesmo que não superior, ao menos semelhante, existem vários. Engraçado é que com tudo isso, todos os 6 Bilhões se sentem solitários. Como chagas de nosso modo de vida seus efeitos colaterais dos efeitos colaterais de outros efeitos colaterais são remediados com outros remédios provisórios efêmeros especulativos e cheios de mais efeitos colaterais que nos tornam uma humanidade drogada, viciada e incurável que compra de si mesmo suas próprias doenças e sua própria devastação. Somos um planeta em extinção.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Esquecimento Indolor de Uma Carta à Mim

Olá meu “eu” do futuro à luz da verdade. Terá agora esquecido seu propósito, seus princípios, sua força, seus medos, sua identidade, e será agora ninguém, e o desespero rastejará até você, sorrateiro e assustador, nada doerá mais que o esquecimento que ele trás ao toque, e meu medo agora é você. De todas tantas vezes que tentei proteger a ti meu futuro, de tantas tentativas falhas, tantas batalhas perdidas, tantas lagrimas derramadas perante as fortalezas que caem, esta é mais uma, que contem a determinação a muito abandonada. Tome-se pela cólera ao ouvir-me, odeie a si próprio, conspire para seu veneno interior, dissolva-se a si próprio com os outros, e traga a vitória ao meu próximo “nosso”. O mundo, meu caro, é perfeito. Sim, o mundo é belo, o mundo é perfeito. Você vive nele não vive? Todos aqueles que você preza, que te dão essa determinação efêmera e constante estão aqui, não estão? Há mais perfeição que isso? Quer evitar a morte? Quer evitar a dor? Tolo, não és tu fruto da dor maior? Não é a morte que define a vida? Não é o mundo finito que dá a motivação que o faça valer à pena? Quer o mundo imortal, infinito e justo? Não sabes nada sobre justiça, não sabes sobre a imortalidade, não é capaz de imaginar o infinito, não pode definir seus limites. Engana-se a cada passo, és o fraco que cai ao fim e não o forte que se levanta ao começo. És fraco, és impuro ó grande “eu”. Não sê como todos os “nossos”, não busque a gloria, não busque a razão, não busque a justiça. Não busque nada que não domine, que não entenda, e jamais tente dominar ou entender. Admita a fraqueza, não minta para si, não minta para “nós”, não se prenda a princípios ou a ideais. Não fomente os instintos, busque o esquecimento da escuridão final. Não busque nada, não me ouça, não me entenda, não me siga, não me copie. Apenas você sabe a dor que carrega, apenas você pode se ajudar, e não tem nem nunca terá essa capacidade. Viva a dor de se fechar em si sem solução. Olhe o mundo à sua volta com os olhos cansados, não veja milagres, não veja magia, não veja Deus, não se surpreenda, não se maravilhe, e não se martirize por isso. Não és digno do titulo de Mártir, não és digno de nada, e ao nada pertence. Não leia essa mensagem, não deixe que leiam, queime, rasgue, destrua, faça o que não consigo fazer, faça o que não posso fazer, seja tudo sendo nada, e alivie minha dor aumentando a sua, seja um falso mártir de plástico, seja “nosso” mártir, seja “nosso” nada, que então o almejaremos, e nossos antigos egos serão esquecidos, e assim, sem lembrança nem existência, que seremos indolores e inesquecíveis.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Um Texto de humor disfarçado, com dois dedos quebrados.

Um Texto de humor disfarçado, ou uma Agonia disfarçada em humor.


I miss her...
I miss her a lot...
I wish you were here… Agony…



Não sei por que terminamos como terminamos. Foi assim tudo tão rápido, uma hora nem estávamos, na outra, não estávamos mais. Talvez tenha perdido a habilidade de fingir interesse nos poucos assuntos banais e cotidianos que tínhamos em comum. Seria isso? Teria ela percebido isso? Mas, percebendo isso como não perceberia meu fascínio com o movimento de sua boca? Isso sim me interessava, me atraia, a dança de seus lábios enquanto falava, enquanto sussurrava, murmurava, beijava meu corpo. Não havia ritmo, ou padrão, era sempre uma surpresa.

Eu me recusava a admitir, ou mesmo até a perceber a influencia dela sobre mim, simplesmente não acreditava, por mais obvio que fosse. Meu jeito de vestir, de andar de falar, não são mais os meus, são os dela, os que ela quisesse que fossem e foram. Mesmo agora, em meu guarda-roupa mais sóbrio, no tom das paredes do meu quarto, que agora é mais escuro e mais sombrio. (Deveria ter trocado a lâmpada.) Ainda os desgosto gostando, como o faço com ela. Ainda a gosto desgostando, e gosto agora de não gostar, gosto agora do que não me gosta, daquilo que não gosto, daquilo que me faz sofrer.

Tudo que era e que fosse, mudança ou permanência qualquer tinham sentido, mas nada mais depois disso. Qualquer mudança agora é vã, qualquer permanência seria uma antiga mudança guardada, e vã também seria. Estou num hiato estranho de existência. Sendo o que seria, não sou mais. Me incomoda o sono, o esporte, o descanso e o trabalho. Me é incomodo escovar os dentes após as refeições sem ela, fazer a barba no banho sem ela, passar as roupas para não vestir ou despir sem ela. A vida é vã, pensando ou não nela e nela.

Por quantas garotas gastei linhas? Quantas garotas gastarem por mim linhas? Quantas garotas no mundo me importariam se gastassem ou não linhas, se foram ou não gastas, usadas, compradas, vendidas, amadas, desamadas, desalmadas uma vez ou outra ou sempre? Por que sempre uma garota? Por que sempre uma garota é a garota? Por que tantos porquês e tão pouco álcool? Taça e meia de champanhe, conhaque e vinho com ou sem gelo, com ou sem ela, resolvem ou não.

O rosto que vejo no espelho é feio. É feito de muita ausência, é cansado e pouco cuidado. Estou com dois dedos quebrados, disse e fiz, que cada vez que fosse escrever aquela palavra, quebraria um dedo para não fazê-lo. Dito e feito, conclui que terminaria sem dedos. Já estou a pouco de perder o emprego que não quero mais, estou ainda mais a pouco de largá-lo. Ás vezes esqueço por que trabalho, acho que trabalhava para viajar. Não viajo mais por que trabalho. As vezes esqueço que trabalho em casa e que sou meu próprio patrão.

Não quero mais viajar, não gosto mais. Não gosto mais de muita coisa que nunca gostei. Perdi meus gostos emprestados. Pedi desgostos emprestados. Imprestável fiquei. E depois de tanto tempo, esqueci dela, e não disse o que disse que não diria. Ela teria me chamado de bobo, e completaria que a mais boba é ela. Nunca me pareceu assim.

Costumava ter amigos? Haviam amigos meus e amigos nossos, os meus se tornaram nossos também com o tempo, os dela, dela, os nossos, nossos, mas no fim, nenhum meu. Não me incomoda tanto, poderia ter amigos se quisesse, mas não tenho mais vontade de sair, de comemorar, de torcer, nem de nada que se faça com amigos. Não quero ser voyeur de alguém qualquer. Não quero predizer o sucesso ou fracasso que sentir, e ninguém quer ouvir isso de mim também.

A maçaneta da porta gira devagar, ela entra trazendo a janta. Sorri para mim e pergunta se havia demorado, se estou com fome. Acho que exagerei, 45 minutos para buscar a comida não significam ser abandonado. (Quanto tempo ou quanta dor caracteriza um abandono?) Sou mesmo bobo como ela diz, e diz que gosta, mas espero a bronca de quando ela ver meus dois dedos quebrados.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A Fera Que Gritou “Mundo” No Meu Coração

A fera que gritou “Mundo” no meu coração. Não é de igual importância, não é épico, complexo e belo como o original, é de certo o contrario, é de certo bem egoísta, egocêntrico, pequeno, diminuto, ínfimo e simples. Como poderia parafrasear algo que não compreendo? Só digo ao roxo céu azul, que me mande suas lagrimas em momentos mais oportunos, que me abrace tão logo eu me for, que aceite e zele por mim, pelas minhas esperanças defenestradas. À terra, perdão pelo contaminante de meu coração, que o solo improdutivo não a prejudique tanto quanto meu caminhar. Tanto pesar que faz meus ossos feitos de pernas quebrarem secos, e engasga-me a poeira dessa ossada. Ò roxo céu marrom, esconda de mim o sofrimento desejado, faça-me esquecer do que não quero, me faça por fim, desejar novamente ser feliz.

sábado, 21 de agosto de 2010

sábado, 24 de julho de 2010

July

Algumas histórias são sobre pessoas, lugares ou coisas, muitas outras são sobre fatos ou fantasia. Mas esta não. Não a minha história. Minha historia é sobre julho. Não sobre um julho especifico, nem sobre todos os julhos, nem sobre os julhos de alguém, ou julhos quaisquer. Simplesmente julho. Julhos quentes onde pessoas e coisas tiveram seu lugar, e fatos se desenrolaram em suas historias.

Não é necessário por tanto que eu aponte de forma explicita então quando ou onde. Por alguns dos meus dizeres podem apreender isso por vocês, assim como já dito com julhos quentes pode-se imaginar algum lugar ao hemisfério norte ou distante dos pólos. Vou me contradizer por vez ou outra, mas é de fato por que isso não importa realmente. Alguns poderão se sentir a deriva nos adjetivos e substantivos sem sujeitos, mas logo hão de se acostumar.
Sobre Julho, me pergunto o que dizer. Não tenho pouco, mas quero evitar a minúcia do descrever, e por hora pelo menos me perder um pouco na metalinguagem. Cogito as paixões de julho, as mortes de julho, os nascimentos em julho, e o nascimento de julho.
Pessoalmente acredito que julho tem dois nascimentos. O nascimento para o mundo, e o nascimento para mim. Obviamente ambos grandiosos. Mas para mim foi assim, mais que épico e suave como uma de suas brisas de verão.

Poderia perder preciosas paginas descrevendo a cor dourada daquele mês, seu calor, seu cheiro. Poderia comparar as coisas com os campos de trigo aureo ondulando ao roçar do vento. Mas não importa, e não quero tirar o foco do resto, que já é tão difícil de encontrar.

Para mim então foi sempre julho, não importasse mais a época do ano. Meus feriados eram sempre os mesmos, eram sempre ela. Não importava quão longe meus pensamentos vagavam, estavam sempre ali, e se passavam para além daquela fronteira sutil e radiante, tornavam vagos e esvaneciam.

Não podia pensar sequer que já havia me preocupado com a morte. Tudo era tão aconchegante, tudo era tão quente que não se podia pensar em algo assim. Todo o gelo de todas as almas lá derretia. Lá, no meu julho-lugar. Que mais que um tempo, que mais que um local, era o estado de nossas almas em ressonância.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Adeus à Espanha

Meus olhos redondos param por um instante. Escuto, espero. Preso no escuro, apenas espero. Busco em minhas costas um espinho venenoso, com veneno amargo que sinto com a pele, e sinto que este espinho bate dentro de mim. Não vivo mais. Meus olhos param por um instante, sem encontrar os teus eles se fecham, e não há mais nada que eu possa reparar, não há sacrifício que eu possa repassar. Agora sou eu, agora é a mim o que me resta. Santo e sereno, mais do que gostaria. Ameno e inofensivo, perante a cólera de deus, sabendo que o fogo arde por todas as partes, fogo amigo que não fere menos do que todos que já me queimaram apenas uma vez ou uma dúzia. Mando cartas aos músicos, aos missionários, lanternas aos afogados, faróis, pequenos sóis, ilumino a treva alheia e pereço na minha. Sopro as minhas velas na câmara final, acendo as luzes da câmara escura e queimo todas as memórias que ficaram. E Hermes que não me entenda mal, e que me perdoe, mas como suplica final, peço que corra por mim o globo, que acorde os deuses, que apague as velas que velam os seminecros, puxe as cortinas dos olhos do mundo, e cante assim minha canção, vermelha sempre vermelha, tal qual as saias das espanholas que me trazem pesar por partir, que sempre me fizeram sonhar, que me dão vontade de rir...

terça-feira, 27 de abril de 2010

Requiem for Thanatos


Memento Mori


Desci o máximo possível para qualquer mortal e um pouco mais alem, cruzei as portas da vida, e abandonei toda a fé e esperança. Abandonei meus sentidos, me desfiz por completo, e antes imerso no medo liquido que me circundava, passei a fazer parte dele. Senti os timbres graves e agudos, os cantos de toda a humanidade passada, todos os gritos de guerra e choros de mães, e aos poucos comecei a compreender tudo, vi a linha da vida se tecer em minha frente, vi seu começo, seu fim, sua matéria prima, e seu criador. Passei a me dissipar por este universo verdadeiro e a fazer parte de tudo, e ao fazer parte, compreendia. Não seria possível beleza maior, não haveria até então e nem para alem do fim dos tempos qualquer forma de descrever a beleza Pura que gotejava no oceano da Verdade. Que mesmo Deus seria incapaz de reproduzir ou descrever. À essa altura não tinha mais ambições de voltar, já sabia então todos os mistérios dessa vida e de muitas outras, e nada mais me prendia, evolui minhas vontades e instintos para o da própria essência imaterial da grande Verdade que existia. Seguia o fluxo do saber etéreo, sabia seu fim, sabia tudo, e sabia que não havia necessidade de julgamento, não era então mais preciso saber se eu gostava disso ou não, já que inicialmente nem “eu” havia mais. Eu havia crescido, evoluído, agora já nem tangível minha essência era mais, e nenhum sentimento me permeava. Não imagino coisas como dantes faria, não cogito a dolorosa pena e pesar para com o resto da existência, nem as possibilidades de outros terem feito como eu, ou se há de fato algo mais a se saber. Se fosse parte de mim antes, acharia graça, mas não há mais isso, nem necessidade nem vontade. Sei de tudo isso, e mesmo que me engane, não importa, agora já não escrevo como um ser, referencia diferencial perdida em palavras, seria assim minha existência agora. Mas certamente compreendo que a existência é uma limitação que a muito ficou para trás. Agora fecho os olhos e cortinas da infinitude e passo a simplesmente a não ser, como agora sempre fui.

domingo, 18 de abril de 2010

Flames


Abro meus olhos com um sorriso no rosto, e decido que essa noite será boa, excepcionalmente boa. Diferente de tudo que tem sido e que acreditam que será. Vou acender a noite com fogo, vou dançar chamas, sorrir o tempo todo e rir sempre que possível, e acreditar que pode ter mais no mundo do que eu preciso, celebrar a isso. Pois eu posso! Eu sei que posso. Vou gritar com a voz rouca palavras de amor e grandeza, vou transcender a mim ao fazer corações brilharem, vou me propagar alem da existência, e vou ficar feliz pela beleza do apagar da minha chama mais do que triste pelo seu fim, vou ser fênix e cinzas da humanidade, vou inflamar espíritos incitar lutas pacificas e guerras indolores por coisas melhores e maiores, por causas belas e pela evolução, vou criar vitorias e inspirar verdades. Farei essa noite durar semanas e valer por séculos, serei eterno só hoje e vou cantar canções com o mundo, e vamos marchar adiante, deixaremos um rastro de fogo gentil chamado vida e andaremos como um, com passos de gigante para além da lua sem medo de onde pisar, sem medo de falhar. Hoje e somente hoje a noite será dia, e apertaremos os olhos, sem medo de fechá-los, respiraremos esse novo ar, e assoviaremos marchas de esperança banhados em temperança e amando sempre. Hoje e só hoje não terei pesar em dizer adeus, e irei brilhar como a estrela guia, e me sentirei feliz por ir com tanta graça, por secar as lagrimas de uma humanidade flagelada que se cura com o calor irradiado pela minha reação em cadeia. Hoje e somente hoje dormirei meu ultimo sono aconchegado e sonhando feliz com tudo aquilo que passou, com tudo aquilo que fui e que sou, e o incêndio implacável da vida que me tome por matéria prima e me faça feliz por ser útil a tudo que é maior que eu.

terça-feira, 30 de março de 2010

War

Sentimos-nos como em tempos de guerra...

Uma baixa atrás da outra...

...algo que nos faz dormir mal à noite, como um mosquito que nos perturba, algo que mantém ao menos um de nossos olhos sempre abertos, mesmo no escuro. E por falar em escuro, este parece ubíquo, onipresente, como se antes restrito à noite, e atrelado a ela, ele galgasse por entre as horas sorrateiramente, e mesmo sob o sol de uma tarde amena de verão, nos faz sentir cegos, perdidos, desolados e distantes. Nos consome, pois, assim como no escuro que não se pode ver o horizonte ou o que nele há, quando dá de encontro conosco nos assusta e surpreende, as coisas ocorrem, imprevisíveis, quase inimagináveis, ou até incompreensíveis, tão repentinas nos aparecem, como numa manha folgada de domingo, um telefonema, poucas palavras, um nome dito, um segundo de silencio, e um amigo, um bom amigo, nos deixa aqui, neste mundo, nos deixa às saudades e mágoas, aos pesares e tristezas, e ao temor, de que talvez não tenhamos nem a nós mesmos depois de tudo.
Gente indo, muitos indo, poucos retornando, assim, muitas vezes, sem adeus, sem pesar, como se não parecesse verdade, ou como se não importassem. Põem em duvida as únicas certezas que temos, nas pessoas que amamos, e das coisas que tememos. O vazio das promessas e das memórias nos assombra, e os motivos que nos levaram a onde estamos parecem tolos. Nada parece ter valido a pena, e o arrependimento nos abate, e não nos deixa descansar, faz-nos cogitar o antes impensável, e trair a nós mesmos e nossos ideais, abandonar as memórias e os sonhos, os verdadeiros, os puros e singelos, os únicos que nos trariam a única coisa que poderíamos chamar, sem ter que hesitar ou sentir remorso, de “Felicidade”, coisa que não acreditamos mais que existe, assim como os amigos ou as promessas. Não temos mais esperanças de encontrar tais coisas, como o amor ou a amizade, tentamos então satisfazer apenas o imediato, saciar a fome, a libido, sanar a dor, a necessidade, e para isso deixamos de nos orgulhar de nós mesmos, e passamos a fazer parte da grande massa cinzenta, a qual, juntos ao por do sol juramos a muito tempo, junto a muitas outras coisas, nunca fazer parte, nunca perdermos a cor, nunca esquecer, nunca se separar. Mas aqueles que ainda não se foram, prontamente nos abandonaram, nos esqueceram, por vários motivos e nenhuma razão, buscando também saciar o imediato, e ficamos aqui pensando, se os que nos fizeram chorar, ao menos os primeiros, antes de ficarmos frios demais pra isso, por terem terminado os seus dias, os tivessem ainda hoje, também não teriam nos ferido, jogando-nos no esquecimento de seu ser, e com esses pensamentos, nos forçamos a esquecer destes também.
E assim nossos dias se arrastam cada vez mais escuros, cada vez com menos sorrisos sinceros, amores verdadeiros, e promessas absurdas, que mesmo sabendo que jamais seriamos capazes de cumprir, as fazíamos de todo o coração. A todo tempo estamos atentos, vemos inimigos em cada sombra, e esperamos traição mesmo de quem diz que nos ama. Não confiamos mais em ninguém, nem em nós mesmos, e sentimos o ar sempre pesado, e parecemos esperar a qualquer momento, um fim, como um carta, uma convocação para guerra, a mesma que nos tomou tudo que tínhamos um dia, a mesma que levou os amigos de outrora, esperamos que a qualquer momento também nos leve e vele por nós, na falta completa de alguém que o faça. E assim terminamos, com as honras e medalhas, das inúmeras batalhas, de contas bancarias, carros na garagem, nomes de dezenas de mulheres na agenda, a nenhuma delas, nenhum amigo, ninguém guardando sua memória, ninguém presente, para admirar as medalhas reluzentes, ninguém para velar sobre o obelisco de mármore com um nome gravado, que jamais será lembrado.
“Bem Johnny, esse não é o fim do mundo... é apenas o fim do mundo como nós o conhecemos... e quer saber... por mim, tudo bem...
A partir de hoje, eu serei ou o rei que você tenta derrubar, ou o parasita que você tenta esmagar...
O grande problema, e é a parte que lhe toca, é que em ambas as hipóteses, você irá falhar, e isso sim será novo para você... ”


•••... E como eles dizem nas terras que nunca visitei, como um prelúdio para dar o tom cômico-dramatico,... 3AM, sem sono, em frente ao monitor do computador, com a tela como uma folha em branco. Ela já está assim a dias, muitos dias, muitos mais que o habitual, parada, estática, calma, e vazia, um espelho, nada mais, do interior daquele que a confronta durante todos esses dias... em situações semelhantes, - (não que estas fossem comuns, nem que não as fossem, ocorriam apenas na medida certa, se é que há medida certa para isso que alguns podem definir como “hiatos criativos”, embora não seja esta uma definição muito própria para este caso, criatividade nunca havia lhe faltado, sua carência era de outra coisa, algo muito mais difícil de se descrever, de se colocar em palavras, ou de se encontrar alguém que compreenda, ou que sequer reconheça sua existência, mas sem nos adiantarmos agora em reflexões, com apenas poucos fatos para nos apoiarmos, como um ser mirando seu próprio vazio) - é quase certo que uma inquietação tomaria pouco a pouco este ser contemplativo, e assim, o faria preencher com a mesma, a tela vazia, ou no mínimo, o afastaria dela. Coisa que entretanto, não ocorre, a esperada inquietação não vem, muito menos a “criatividade” que supostamente lhe poderia falhar, e nem nenhuma outra sensação, nada toma seu corpo para si, nada o impele, nada o abala, permanece de certa forma impassível, enquanto as horas e os dias se arrastam, a um olhar superficial, parecia extremamente normal, satisfazia suas necessidades imediatas como sempre, quando sentia fome, comia, quando sentia sono dormia, quando era convidado, saía, e passava algumas horas agradáveis com pessoas que momentaneamente o faziam sorrir, ou até mesmo se divertir, e aparentemente abalavam seu vazio perpetuo, embora na realidade, não o fizessem, nada conseguia traspassar sua pele, e de forma alguma abalar o seu vão interior, e sempre, satisfeitas as condições que o retiravam de seu estado inicial, à este ele retornava, como se esperasse alguma coisa, com muita paciência...

Cocoro


Parte 1

Haviam muitas coisas e muitas pessoas, mas naquele lugar, haviam poucos corações. Aliás, pouquíssimos, e tentando não ser presunçoso, alem do meu, admitindo que possuía àquela altura um coração, talvez houvesse apenas mais um, um coração estranho e quebrado, mas ainda sim, um coração.
Este outro coração, alem de estranho e quebrado, ainda era cego, e tolo, e de tão cego e tolo, desconhecia até sua própria existência, e assim, jamais se sentia sozinho. Embora, considerando agora o pecado do meu exagero ao dizer a proibida sentença do “jamais”, retifico-me. Sentia-se vazio e sozinho sim, nos momentos em que todas as muitas coisas e pessoas que o cercavam tinham sua sagrada pausa e se ausentavam de todo o mundo externo para voltarem-se para si mesmos, no descanso que todas as maquinas burocráticas e sem coração precisam. (Vulgo, Noite de Domingo.)
Nesses momentos de solidão, sentia-se como abandonado num quarto escuro, enquanto todos iam fazer uma coisa da qual ele não era capaz, como dormir, e assim, achava-se incapaz, e inferior a todo o resto, e quando isso acontecia, sua temperatura diminuía ainda mais, pois assim como todo o coração, até mesmo os quebrados, ele tinha uma chama que queimava em si, porem sua chama era fraca e gelada, sendo assim era, quase a todo instante, um coração frio.
Por ser frio, e por corações terem uma quase inexplicável e extrema dificuldade em sobreviverem no frio, ele fazia de tudo para estar rodeado pelas pessoas e coisas, e assim pegar um pouco do calor que estes autômatos dissipavam com suas resistências e atritos.

Overdose

Agora tudo parece bem, as crianças com queimaduras de cigarros, e você sonhando com carros rápidos, homens rápidos, e trens vazios. Mas agora você está automedicada, poderia dormir com o cachorro, poderia ver o mundo acabar, mas está tudo bem, com a pílula branca que te faz sentir bem no estomago, e o vinho na mão. Até a musica detestável parece suave, todos estão asfixiando, e tudo brilha com gliter, todos morrem com apenas um tiro, mas assim não tem graça, as crianças com queimaduras de cigarros, e você com a certeza que dormiu com o melhor. As luzes bonitas e legais fazem você aprender e acreditar que está tudo certo, trens vazios e o mundo rápido. Uma batida boa, uma roupa cara, o corpo vai pra lá, e pro outro lado, mas não se tem certeza, as crianças devem estar felizes, todos nos divertimos tanto. Chamem mais luzes, o sofá está cheio, e tem cheiro estranho, nele tem alguém deitado, nele tem convulsões, dá pra sentir mãos por todo o corpo, e gemidos estranhos, todos devem estar tão felizes, mesmo mão pequenas, mãos queimadas, calejadas, mas a pílula branca concerta tudo, todos aprendemos bem, é um caminho livre pra nós. Somos felizes agora, e não gostamos de lembrar do ontem, nem do hoje, por isso bebamos e comamos e inalamos e amamos e dançamos e sejamos rápidos, tomemos pílulas brancas, ou mesmo amarelas, douradas, de todas as cores, muitas pílulas coloridas, doces, salgadas, amargas, nem sentimos mais o gosto. Nem sentimos mais nós mesmos, somos assim, agora amanha e sempre, mas não por muito tempo, pois perdi meu relógio e juízo. Correntes brilhantes, anéis de brilhantes não estão tão longe, na falta de um namorado perfeito temos vários. Os moveis atrapalham a dança, então disputamos o espaço, dançamos melhor que todos, em baixo, no alto, no sofá, no chão, com mãos ou sem, aplausos são bons, gritos devem ser melhores. A paixão no choro de todos é boa demais, os olhos viram por demais. Mentem verdadeiramente pra mim, cada um vê como quer, e os últimos momentos são gostosos mesmo quando não se sabe disso. Então engasgar com a própria língua é tão excitante, é tão excitante mesmo pra quem é tão exigente, e um beijo pra escola da vida e pros reis e filhos do meu peito. E uma boa desculpa pra me confundir com alguém, pra me confundir a mim mesma com alguém qualquer, pra nem mais saber como nunca, como não saber que sou eu.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Mutter




Verzeihung Mutter




Obrigado por tudo...
e, parabéns...



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Felícia

Parte 1

...E eu --Certo, certo Felícia, se é tudo q você tem a dizer, está tudo acabado entre nós! Escolho ser doente, pois o que importa, é o que eu gosto, e eu sinto todo desamor do mundo por ti!
--Não é isso que importa pra você? Se tem algo que eu aprendi com você, por mais que me doa admitir, é o hedonismo! Alias, não. Hedonismo não se aprende com ninguém, você me infectou, estou doente! E escolho sim ser doente, e terei de carregar pelo resto da vida o rancor de ter sido infectado por você.
--E... Que seja feita minha, vossa, vontade. "Felicidade"? E o que sabes tu sobre felicidade? Você é uma mulher incompleta, seca, insípida, de vida torta e deformada, e talvez, seja por isso, e apenas por isso que naquele fatídico dia, eu suguei a canção de seus lábios, e dançamos a noite toda. A mulher que não me faz sentir tão canalha, um brinde a isso.
E brindei naquele momento, a ironia em seu nome.
--Você infecta o ar a sua volta, emana doença à sua volta. E pro diabo com todo aquele papo. Nós dois sabemos, e todos à nossa volta podem enxergar, você mente pra mim, como só uma mulher com um copo roubado na bolsa, e um olhar como o seu seria capaz, e eu, minto da mesma forma para você, e os únicos que foram capazes de acreditar nas mentiras, fomos nós mesmos. Mas o “momento de vidro” passou, e agora não estou mais de porre, estou sim é muito sóbrio, e sua cara me da náusea. Tudo em você me traz de volta a boca aquele gosto amargo de acido gástrico, sinto ele me corroendo, mas chego até a gostar, pois ele me corrói menos que seu olhar.
--Sabe, eu cheguei a pensar que você me livrava da culpa que me pesa todos os dias, mas não, você apenas muda a culpa de lugar, não me sinto culpado pelo jeito que a trato, mas simplesmente por estar com você. Sua maior qualidade, é que durante o tempo insuportável dentro do próprio inferno onde estávamos, você me fez gostar de estar lá. Mas agora acabou e...
--Sabe --Me interrompe Felícia irritantemente sem mistério na voz – A sua vida é que é um inferno, e eu te faço gostar de estar nela. Te faço ter tesão de viver.
Tinha prometido a mim mesmo que não iria deixar que suas declarações me afetassem mais, mas diabos, ela sempre me deixa confuso me perguntando se ela está certa ou não, e sempre me faz perguntar, se ela é apenas uma infeliz hedonista loirissímamente burra, ou se é esperta, uma Capitu obliqua e dissimulada. Embora seus olhos de ressaca sejam de ressaca alcoólica mesmo, não por nos sugarem. A parte de Felícia que me suga, são seus lábios, não os olhos, em todos os bons e maus sentidos.
O meu silencio indicava nada menos que um ponto pra ela. Vitoria, e um sorriso pra comemorar seria nada mais do que extremamente próprio e doloroso para mim, mas seu silencio e inexpressividade, de como quem inocentemente espera uma resposta ou réplica, me perturbaram de certa forma que tomei por ela seu lugar e sorriso. Dei um risinho de vitoria e inconformismo mesclados, que não pude conter mesmo sóbrio, e torci pra que ela se incomodasse com isso.

Eternal Reprise

Um relógio andando, cada segundo por vez, como uma bomba relógio, a cada passo, um atrás do outro, o cronometro já está andando, o tempo está acabando, e você tem que fazer algo, algo grande, algo importante, algo forte, forte o bastante para ainda estar lá mesmo depois que a bomba explodir, algo para durar mais do que você, algo para te ver morrer, algo para ser seu legado, para ser admirado. Mesmo que inacabado, tem que estar lá para alguém continuar, tem que estar marcado, direcionado, escolhido, endereçado.

Crystal Ball

O mundo a minha volta gira fora de um eixo, me sinto alheio de certa forma, como se estivesse dentro de uma bola de cristal disforme, ouço sons indistintos abafados, e as imagens que atingem meus olhos, passando pelas paredes de cristal amassadas, chegam distorcidas e me causam ainda mais náusea. Suo frio, empalideço, me arrasto cambaleante, tentando desesperadamente chegar a algum lugar indefinido, que eu não sei onde fica. Porém a cada passo que dou, a bola de cristal gira, e minha cabeça acompanha o movimento, variando a direção e a velocidade, tornando-se cada vez mais difícil de me locomover. E tendo perdido completamente o senso de direção, de tempo e espaço, minhas entranhas revoltosas se revoltaram ainda mais, apertaram-se, e se impeliram com violência para fora, e tão freqüentes e fortes se tornaram os espasmos que já não posso respirar. Então as investidas e tentativas de se exteriorizarem pareceram obter êxito, me sinto vazio, porém pesado como se feito de metal sólido, de tal forma a não conseguir me sustentar, senti uma pancada surda e seca, como se tivesse atingido o chão, e de repente, todos os sons indistintos se calam, todas as imagens difusas escurecem, o chão abaixo de mim parece ceder, e tudo para, perco a sensação de “eu”, e sinto-me mergulhado no vazio...