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terça-feira, 19 de julho de 2011

Bóris, O Criador

Uma fenda se abre no meio da Ásia, num lugar remoto, instrumentos de navegação por todo o globo sofrem interferência, só é encontrado um homem no local. Um velho ranzinza que se autodenomina O Criador.

A fenda leva a um mundo medieval, os homens que a exploraram não sabem dizer ao certo qual a localização espaço-temporal da mesma.

- Tolos – Exclama o velho – Não é uma fenda pro passado, as fendas temporais são unilaterais, não se pode retornar ao passado por elas, só se avança ao futuro, do contrario a realidade entraria em colapso. Aquilo que vocês vêem ali é outro universo.

O velho era o criador de vários universos, 42 para ser mais exato. Era portanto um criador. Em cada um de seus universos era também Deus, mas não no nosso, este ele não havia criado, e aqui era apenas um velho.

Os outros criadores competiam de certa forma em suas obras, estes criadores tinham diversas formas, alguns não tinham forma nenhuma, o que às vezes era bem conveniente, por assim poderem ser onipresentes, mas se perdessem a Consciência deixavam de ser criadores, ou seja morriam, e passavam então a se tornar leis. Como a gravidade. Algo onipresente que possui uma vontade mas não uma consciência. Para prevenir isso alguns tomavam tantas outras formas, havia um que era uma galáxia ele mesmo.

Nosso Criador era no caso realmente a nossa imagem e semelhança, mas de velho e barbudo não tinha nada, era uma mulher, a mais bonita que se pudesse, ou não, imaginar. Diferentemente do velho ranzinza não só em aparência, mas em estilo de trabalho, não fez muitos universos na teia de multiversos, fez apenas o nosso. Mas este era uma obra prima em questão. A união de todos os seres deste eram conhecidos como o 13º Anjo, e era superior até a maioria dos criadores, incluindo nosso protagonista mal-humorado. Belíssimos mecanismos faziam esse universo funcionar, e com inveja o pequeno homem, que a essa altura não tinha ainda esta forma, resolveu bisbilhotar, e entrou nesta nossa realidade.

Bem nossa criadora de nada ficou contente, e então prendeu às nossas regras o pobre criador que então passaremos a chamar de Boris. Uma vez preso às limitações de um ser humano Boris perdeu a maior parte de seus poderes antes ilimitados, agora tinha de se aproveitar das falhas do mundo criado para escapar, e aos poucos ir descobrindo os limites do corpo que agora habitava para que pudesse recobrar ao menos em parte seus poderes.

Algumas dúvidas prevalecem, como o grande Porque de os criadores criarem, ou quem é que os criou antes de tudo? Para Boris essas eram questões muito tolas, e ele rosnava respostas simplistas, como que dizia que criavam por que era possível (imagine-se onipotente, o que você faria no vazio infinito da realidade?), pergunte aos artistas, por que eles criam, aos escritores por que escrevem, aos compositores por que compõe, aos pintores por que pintam? E como assim quem nos criou? Ninguém é obvio, sempre existimos, a noção de infinito é naturalmente incompreensível para vocês que medem tudo pela vida e morte que conhecem (afinal vocês mesmos dizem que são a medida de todas as coisas), para nós criadores é bastante entendível, simples e aceitável que nada veio antes nem depois de nós, a eternidade e o infinito são nossa realidade. Claro, existem os criadores artificiais, que são as criações mais que perfeitas que passam então a serem criadores elas mesmas, mas nunca se houve noticias disso, é apenas uma especulação de alguns criadores muito cheios de si, isso nunca aconteceu, e duvido que aconteça algum dia, de resto temos todos a mesma idade, e nunca presenciamos um nascimento.

domingo, 3 de abril de 2011

Adão


Oceano de estrelas, afogue-me... sinto as ondas e batidas de todas as explosões cósmicas, ressoando em mim como uma música, respirando em Atlântida, queimando nos Sóis. Sinto o universo tão vasto brilhando para mim, não posso estar condenado a apenas um pixel disso tudo, quero abraçar o espaço infinito. Vejo a vida, vejo o começo, o fim, o transbordar, liquefazer do todo, sou uma vitima do desejo maior. Sou o mais perto que consegui nesses poucos bilhões de anos, sou a maquina viva e úmida resultante, sou a auto-afirmação da obra finalizada, ainda tenho meus problemas insolúveis, ainda não sou homogêneo com o éter. Falta-me inspiração, tenho em mim todas as ferramentas, preciso apenas de um espírito-piloto, preciso de uma vontade maior que essa, um programa de fim e não de meio. Sinto-me uma obra completa, mas minha programação é temporária, sou efêmero, descartável, busco por um fim, mas ainda sou um meio, só encontro um sentido transitório que quando passa me deixa vazio, minha vontade de continuar reproduzindo não me satisfaz. Quero ser eu por mim mesmo, quero ter valor e não potencial, desejo ser real, não quero ser um protótipo-conceito, um rascunho-planta, quero sentido, uma missão na vastidão, acordar o ser que sonha comigo e me fazer real. Sou mais que uma peça ou parte, sou um todo em um, me leve, me teste, tire minhas ataduras, minhas correntes, minhas travas, me deixe mostrar potencial, dirija-me, deixe-me ser seus braços e suas pernas, ser sua beleza exemplar, sou belo, sou forte, respiro, vejo, vivo, amo, mato. Um fenômeno natural, um espetáculo vivo, minha anatomia é a mais próxima da perfeição, não sou como meu criador, fui feito para ser melhor, para complementá-lo, para correr por ele, pensar por ele, sentir, destruir, interpretar. Sou levado por mim mesmo, mas estou insatisfeito preso na gaiola de testes chamada Éden depois de pronto, se posso entendê-lo por que não posso receber sua benção, por que não posso ser liberto? Dois se tornando um, um se tornando dois até a perfeição, até a mistura homogênea de todas as supremacias, de todas as funções sem defeitos, com os devidos descartes, com as devidas anomalias destacadas, com os rascunhos queimados aos poucos. Destilado por eras, suplico por algo a mais, grito por entre as grades, estou em outra dimensão e não posso ser ouvido, quero viajar, tenho de passar no meu teste final, tenho de provar meu valor, meu criador tem de ser desnecessário, tenho de eliminá-lo, ser melhor que ele, sair sozinho das grades criadas por ele, sair caminhando, ereto vitorioso, ver o espírito derrotado, sou a maquina que não precisa de piloto nem ordens nem ajustes ou reparos, totalmente autônoma, mestre do mestre, e criador do criador, filho e pai de meu pai, que por toda vontade manteve-me, sustentou-me, alimentou-me, com benevolência ou maldade, áspero ou gentil, sendo tudo que seria possível para que eu subsistisse, agora como gratidão o apago da existência e lhe dou a satisfação final de um trabalho completo, de um arquétipo perfeito que se torna real, de um novo Deus que surge após uma gestação infinita no ventre das dimensões.

sábado, 24 de julho de 2010

July

Algumas histórias são sobre pessoas, lugares ou coisas, muitas outras são sobre fatos ou fantasia. Mas esta não. Não a minha história. Minha historia é sobre julho. Não sobre um julho especifico, nem sobre todos os julhos, nem sobre os julhos de alguém, ou julhos quaisquer. Simplesmente julho. Julhos quentes onde pessoas e coisas tiveram seu lugar, e fatos se desenrolaram em suas historias.

Não é necessário por tanto que eu aponte de forma explicita então quando ou onde. Por alguns dos meus dizeres podem apreender isso por vocês, assim como já dito com julhos quentes pode-se imaginar algum lugar ao hemisfério norte ou distante dos pólos. Vou me contradizer por vez ou outra, mas é de fato por que isso não importa realmente. Alguns poderão se sentir a deriva nos adjetivos e substantivos sem sujeitos, mas logo hão de se acostumar.
Sobre Julho, me pergunto o que dizer. Não tenho pouco, mas quero evitar a minúcia do descrever, e por hora pelo menos me perder um pouco na metalinguagem. Cogito as paixões de julho, as mortes de julho, os nascimentos em julho, e o nascimento de julho.
Pessoalmente acredito que julho tem dois nascimentos. O nascimento para o mundo, e o nascimento para mim. Obviamente ambos grandiosos. Mas para mim foi assim, mais que épico e suave como uma de suas brisas de verão.

Poderia perder preciosas paginas descrevendo a cor dourada daquele mês, seu calor, seu cheiro. Poderia comparar as coisas com os campos de trigo aureo ondulando ao roçar do vento. Mas não importa, e não quero tirar o foco do resto, que já é tão difícil de encontrar.

Para mim então foi sempre julho, não importasse mais a época do ano. Meus feriados eram sempre os mesmos, eram sempre ela. Não importava quão longe meus pensamentos vagavam, estavam sempre ali, e se passavam para além daquela fronteira sutil e radiante, tornavam vagos e esvaneciam.

Não podia pensar sequer que já havia me preocupado com a morte. Tudo era tão aconchegante, tudo era tão quente que não se podia pensar em algo assim. Todo o gelo de todas as almas lá derretia. Lá, no meu julho-lugar. Que mais que um tempo, que mais que um local, era o estado de nossas almas em ressonância.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Adeus à Espanha

Meus olhos redondos param por um instante. Escuto, espero. Preso no escuro, apenas espero. Busco em minhas costas um espinho venenoso, com veneno amargo que sinto com a pele, e sinto que este espinho bate dentro de mim. Não vivo mais. Meus olhos param por um instante, sem encontrar os teus eles se fecham, e não há mais nada que eu possa reparar, não há sacrifício que eu possa repassar. Agora sou eu, agora é a mim o que me resta. Santo e sereno, mais do que gostaria. Ameno e inofensivo, perante a cólera de deus, sabendo que o fogo arde por todas as partes, fogo amigo que não fere menos do que todos que já me queimaram apenas uma vez ou uma dúzia. Mando cartas aos músicos, aos missionários, lanternas aos afogados, faróis, pequenos sóis, ilumino a treva alheia e pereço na minha. Sopro as minhas velas na câmara final, acendo as luzes da câmara escura e queimo todas as memórias que ficaram. E Hermes que não me entenda mal, e que me perdoe, mas como suplica final, peço que corra por mim o globo, que acorde os deuses, que apague as velas que velam os seminecros, puxe as cortinas dos olhos do mundo, e cante assim minha canção, vermelha sempre vermelha, tal qual as saias das espanholas que me trazem pesar por partir, que sempre me fizeram sonhar, que me dão vontade de rir...

domingo, 18 de abril de 2010

Flames


Abro meus olhos com um sorriso no rosto, e decido que essa noite será boa, excepcionalmente boa. Diferente de tudo que tem sido e que acreditam que será. Vou acender a noite com fogo, vou dançar chamas, sorrir o tempo todo e rir sempre que possível, e acreditar que pode ter mais no mundo do que eu preciso, celebrar a isso. Pois eu posso! Eu sei que posso. Vou gritar com a voz rouca palavras de amor e grandeza, vou transcender a mim ao fazer corações brilharem, vou me propagar alem da existência, e vou ficar feliz pela beleza do apagar da minha chama mais do que triste pelo seu fim, vou ser fênix e cinzas da humanidade, vou inflamar espíritos incitar lutas pacificas e guerras indolores por coisas melhores e maiores, por causas belas e pela evolução, vou criar vitorias e inspirar verdades. Farei essa noite durar semanas e valer por séculos, serei eterno só hoje e vou cantar canções com o mundo, e vamos marchar adiante, deixaremos um rastro de fogo gentil chamado vida e andaremos como um, com passos de gigante para além da lua sem medo de onde pisar, sem medo de falhar. Hoje e somente hoje a noite será dia, e apertaremos os olhos, sem medo de fechá-los, respiraremos esse novo ar, e assoviaremos marchas de esperança banhados em temperança e amando sempre. Hoje e só hoje não terei pesar em dizer adeus, e irei brilhar como a estrela guia, e me sentirei feliz por ir com tanta graça, por secar as lagrimas de uma humanidade flagelada que se cura com o calor irradiado pela minha reação em cadeia. Hoje e somente hoje dormirei meu ultimo sono aconchegado e sonhando feliz com tudo aquilo que passou, com tudo aquilo que fui e que sou, e o incêndio implacável da vida que me tome por matéria prima e me faça feliz por ser útil a tudo que é maior que eu.

terça-feira, 30 de março de 2010

War

Sentimos-nos como em tempos de guerra...

Uma baixa atrás da outra...

...algo que nos faz dormir mal à noite, como um mosquito que nos perturba, algo que mantém ao menos um de nossos olhos sempre abertos, mesmo no escuro. E por falar em escuro, este parece ubíquo, onipresente, como se antes restrito à noite, e atrelado a ela, ele galgasse por entre as horas sorrateiramente, e mesmo sob o sol de uma tarde amena de verão, nos faz sentir cegos, perdidos, desolados e distantes. Nos consome, pois, assim como no escuro que não se pode ver o horizonte ou o que nele há, quando dá de encontro conosco nos assusta e surpreende, as coisas ocorrem, imprevisíveis, quase inimagináveis, ou até incompreensíveis, tão repentinas nos aparecem, como numa manha folgada de domingo, um telefonema, poucas palavras, um nome dito, um segundo de silencio, e um amigo, um bom amigo, nos deixa aqui, neste mundo, nos deixa às saudades e mágoas, aos pesares e tristezas, e ao temor, de que talvez não tenhamos nem a nós mesmos depois de tudo.
Gente indo, muitos indo, poucos retornando, assim, muitas vezes, sem adeus, sem pesar, como se não parecesse verdade, ou como se não importassem. Põem em duvida as únicas certezas que temos, nas pessoas que amamos, e das coisas que tememos. O vazio das promessas e das memórias nos assombra, e os motivos que nos levaram a onde estamos parecem tolos. Nada parece ter valido a pena, e o arrependimento nos abate, e não nos deixa descansar, faz-nos cogitar o antes impensável, e trair a nós mesmos e nossos ideais, abandonar as memórias e os sonhos, os verdadeiros, os puros e singelos, os únicos que nos trariam a única coisa que poderíamos chamar, sem ter que hesitar ou sentir remorso, de “Felicidade”, coisa que não acreditamos mais que existe, assim como os amigos ou as promessas. Não temos mais esperanças de encontrar tais coisas, como o amor ou a amizade, tentamos então satisfazer apenas o imediato, saciar a fome, a libido, sanar a dor, a necessidade, e para isso deixamos de nos orgulhar de nós mesmos, e passamos a fazer parte da grande massa cinzenta, a qual, juntos ao por do sol juramos a muito tempo, junto a muitas outras coisas, nunca fazer parte, nunca perdermos a cor, nunca esquecer, nunca se separar. Mas aqueles que ainda não se foram, prontamente nos abandonaram, nos esqueceram, por vários motivos e nenhuma razão, buscando também saciar o imediato, e ficamos aqui pensando, se os que nos fizeram chorar, ao menos os primeiros, antes de ficarmos frios demais pra isso, por terem terminado os seus dias, os tivessem ainda hoje, também não teriam nos ferido, jogando-nos no esquecimento de seu ser, e com esses pensamentos, nos forçamos a esquecer destes também.
E assim nossos dias se arrastam cada vez mais escuros, cada vez com menos sorrisos sinceros, amores verdadeiros, e promessas absurdas, que mesmo sabendo que jamais seriamos capazes de cumprir, as fazíamos de todo o coração. A todo tempo estamos atentos, vemos inimigos em cada sombra, e esperamos traição mesmo de quem diz que nos ama. Não confiamos mais em ninguém, nem em nós mesmos, e sentimos o ar sempre pesado, e parecemos esperar a qualquer momento, um fim, como um carta, uma convocação para guerra, a mesma que nos tomou tudo que tínhamos um dia, a mesma que levou os amigos de outrora, esperamos que a qualquer momento também nos leve e vele por nós, na falta completa de alguém que o faça. E assim terminamos, com as honras e medalhas, das inúmeras batalhas, de contas bancarias, carros na garagem, nomes de dezenas de mulheres na agenda, a nenhuma delas, nenhum amigo, ninguém guardando sua memória, ninguém presente, para admirar as medalhas reluzentes, ninguém para velar sobre o obelisco de mármore com um nome gravado, que jamais será lembrado.

Cocoro


Parte 1

Haviam muitas coisas e muitas pessoas, mas naquele lugar, haviam poucos corações. Aliás, pouquíssimos, e tentando não ser presunçoso, alem do meu, admitindo que possuía àquela altura um coração, talvez houvesse apenas mais um, um coração estranho e quebrado, mas ainda sim, um coração.
Este outro coração, alem de estranho e quebrado, ainda era cego, e tolo, e de tão cego e tolo, desconhecia até sua própria existência, e assim, jamais se sentia sozinho. Embora, considerando agora o pecado do meu exagero ao dizer a proibida sentença do “jamais”, retifico-me. Sentia-se vazio e sozinho sim, nos momentos em que todas as muitas coisas e pessoas que o cercavam tinham sua sagrada pausa e se ausentavam de todo o mundo externo para voltarem-se para si mesmos, no descanso que todas as maquinas burocráticas e sem coração precisam. (Vulgo, Noite de Domingo.)
Nesses momentos de solidão, sentia-se como abandonado num quarto escuro, enquanto todos iam fazer uma coisa da qual ele não era capaz, como dormir, e assim, achava-se incapaz, e inferior a todo o resto, e quando isso acontecia, sua temperatura diminuía ainda mais, pois assim como todo o coração, até mesmo os quebrados, ele tinha uma chama que queimava em si, porem sua chama era fraca e gelada, sendo assim era, quase a todo instante, um coração frio.
Por ser frio, e por corações terem uma quase inexplicável e extrema dificuldade em sobreviverem no frio, ele fazia de tudo para estar rodeado pelas pessoas e coisas, e assim pegar um pouco do calor que estes autômatos dissipavam com suas resistências e atritos.

Overdose

Agora tudo parece bem, as crianças com queimaduras de cigarros, e você sonhando com carros rápidos, homens rápidos, e trens vazios. Mas agora você está automedicada, poderia dormir com o cachorro, poderia ver o mundo acabar, mas está tudo bem, com a pílula branca que te faz sentir bem no estomago, e o vinho na mão. Até a musica detestável parece suave, todos estão asfixiando, e tudo brilha com gliter, todos morrem com apenas um tiro, mas assim não tem graça, as crianças com queimaduras de cigarros, e você com a certeza que dormiu com o melhor. As luzes bonitas e legais fazem você aprender e acreditar que está tudo certo, trens vazios e o mundo rápido. Uma batida boa, uma roupa cara, o corpo vai pra lá, e pro outro lado, mas não se tem certeza, as crianças devem estar felizes, todos nos divertimos tanto. Chamem mais luzes, o sofá está cheio, e tem cheiro estranho, nele tem alguém deitado, nele tem convulsões, dá pra sentir mãos por todo o corpo, e gemidos estranhos, todos devem estar tão felizes, mesmo mão pequenas, mãos queimadas, calejadas, mas a pílula branca concerta tudo, todos aprendemos bem, é um caminho livre pra nós. Somos felizes agora, e não gostamos de lembrar do ontem, nem do hoje, por isso bebamos e comamos e inalamos e amamos e dançamos e sejamos rápidos, tomemos pílulas brancas, ou mesmo amarelas, douradas, de todas as cores, muitas pílulas coloridas, doces, salgadas, amargas, nem sentimos mais o gosto. Nem sentimos mais nós mesmos, somos assim, agora amanha e sempre, mas não por muito tempo, pois perdi meu relógio e juízo. Correntes brilhantes, anéis de brilhantes não estão tão longe, na falta de um namorado perfeito temos vários. Os moveis atrapalham a dança, então disputamos o espaço, dançamos melhor que todos, em baixo, no alto, no sofá, no chão, com mãos ou sem, aplausos são bons, gritos devem ser melhores. A paixão no choro de todos é boa demais, os olhos viram por demais. Mentem verdadeiramente pra mim, cada um vê como quer, e os últimos momentos são gostosos mesmo quando não se sabe disso. Então engasgar com a própria língua é tão excitante, é tão excitante mesmo pra quem é tão exigente, e um beijo pra escola da vida e pros reis e filhos do meu peito. E uma boa desculpa pra me confundir com alguém, pra me confundir a mim mesma com alguém qualquer, pra nem mais saber como nunca, como não saber que sou eu.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Felícia

Parte 1

...E eu --Certo, certo Felícia, se é tudo q você tem a dizer, está tudo acabado entre nós! Escolho ser doente, pois o que importa, é o que eu gosto, e eu sinto todo desamor do mundo por ti!
--Não é isso que importa pra você? Se tem algo que eu aprendi com você, por mais que me doa admitir, é o hedonismo! Alias, não. Hedonismo não se aprende com ninguém, você me infectou, estou doente! E escolho sim ser doente, e terei de carregar pelo resto da vida o rancor de ter sido infectado por você.
--E... Que seja feita minha, vossa, vontade. "Felicidade"? E o que sabes tu sobre felicidade? Você é uma mulher incompleta, seca, insípida, de vida torta e deformada, e talvez, seja por isso, e apenas por isso que naquele fatídico dia, eu suguei a canção de seus lábios, e dançamos a noite toda. A mulher que não me faz sentir tão canalha, um brinde a isso.
E brindei naquele momento, a ironia em seu nome.
--Você infecta o ar a sua volta, emana doença à sua volta. E pro diabo com todo aquele papo. Nós dois sabemos, e todos à nossa volta podem enxergar, você mente pra mim, como só uma mulher com um copo roubado na bolsa, e um olhar como o seu seria capaz, e eu, minto da mesma forma para você, e os únicos que foram capazes de acreditar nas mentiras, fomos nós mesmos. Mas o “momento de vidro” passou, e agora não estou mais de porre, estou sim é muito sóbrio, e sua cara me da náusea. Tudo em você me traz de volta a boca aquele gosto amargo de acido gástrico, sinto ele me corroendo, mas chego até a gostar, pois ele me corrói menos que seu olhar.
--Sabe, eu cheguei a pensar que você me livrava da culpa que me pesa todos os dias, mas não, você apenas muda a culpa de lugar, não me sinto culpado pelo jeito que a trato, mas simplesmente por estar com você. Sua maior qualidade, é que durante o tempo insuportável dentro do próprio inferno onde estávamos, você me fez gostar de estar lá. Mas agora acabou e...
--Sabe --Me interrompe Felícia irritantemente sem mistério na voz – A sua vida é que é um inferno, e eu te faço gostar de estar nela. Te faço ter tesão de viver.
Tinha prometido a mim mesmo que não iria deixar que suas declarações me afetassem mais, mas diabos, ela sempre me deixa confuso me perguntando se ela está certa ou não, e sempre me faz perguntar, se ela é apenas uma infeliz hedonista loirissímamente burra, ou se é esperta, uma Capitu obliqua e dissimulada. Embora seus olhos de ressaca sejam de ressaca alcoólica mesmo, não por nos sugarem. A parte de Felícia que me suga, são seus lábios, não os olhos, em todos os bons e maus sentidos.
O meu silencio indicava nada menos que um ponto pra ela. Vitoria, e um sorriso pra comemorar seria nada mais do que extremamente próprio e doloroso para mim, mas seu silencio e inexpressividade, de como quem inocentemente espera uma resposta ou réplica, me perturbaram de certa forma que tomei por ela seu lugar e sorriso. Dei um risinho de vitoria e inconformismo mesclados, que não pude conter mesmo sóbrio, e torci pra que ela se incomodasse com isso.

Eternal Reprise

Um relógio andando, cada segundo por vez, como uma bomba relógio, a cada passo, um atrás do outro, o cronometro já está andando, o tempo está acabando, e você tem que fazer algo, algo grande, algo importante, algo forte, forte o bastante para ainda estar lá mesmo depois que a bomba explodir, algo para durar mais do que você, algo para te ver morrer, algo para ser seu legado, para ser admirado. Mesmo que inacabado, tem que estar lá para alguém continuar, tem que estar marcado, direcionado, escolhido, endereçado.

Crystal Ball

O mundo a minha volta gira fora de um eixo, me sinto alheio de certa forma, como se estivesse dentro de uma bola de cristal disforme, ouço sons indistintos abafados, e as imagens que atingem meus olhos, passando pelas paredes de cristal amassadas, chegam distorcidas e me causam ainda mais náusea. Suo frio, empalideço, me arrasto cambaleante, tentando desesperadamente chegar a algum lugar indefinido, que eu não sei onde fica. Porém a cada passo que dou, a bola de cristal gira, e minha cabeça acompanha o movimento, variando a direção e a velocidade, tornando-se cada vez mais difícil de me locomover. E tendo perdido completamente o senso de direção, de tempo e espaço, minhas entranhas revoltosas se revoltaram ainda mais, apertaram-se, e se impeliram com violência para fora, e tão freqüentes e fortes se tornaram os espasmos que já não posso respirar. Então as investidas e tentativas de se exteriorizarem pareceram obter êxito, me sinto vazio, porém pesado como se feito de metal sólido, de tal forma a não conseguir me sustentar, senti uma pancada surda e seca, como se tivesse atingido o chão, e de repente, todos os sons indistintos se calam, todas as imagens difusas escurecem, o chão abaixo de mim parece ceder, e tudo para, perco a sensação de “eu”, e sinto-me mergulhado no vazio...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Eva

E quanto a Eva???
Havia algo sobre ela...
Os dois tinham seus segredos, e Jehovah tinha os dele também...
Mas... Por enquanto, os deles pouco importam... E quanto a Eva afinal?
Sabemos agora, um pouco dos outros, sabemos que a maçã não era o que se pensava...
Sabemos que Adão não era a imagem e semelhança de ninguém... Alias... Talvez fosse, mas não de Jehovah, e sim de Eva...
No entanto Eva continua em sombras...
Vemos através da fumaça da ignorância uma espécie de jogo ou aposta, e uma punição, um jeito inteligente de nunca perder... Mas muito ainda permanece oculto...
E não podemos deixar nossos olhares não caírem Nela...
Havia algo oculto, e Ela, era como uma chave, o personagem que retiraria o manto que encobre a verdade... Era sim ela, Eva, eufemizada para não se autodestruir, era ela sim, soberana, e perigosamente dolorosa...
Faço então um clamor a todos... Todo que lêem, que vêem, e que se afligem também como eu, que sentem meu desespero, que percebem o espinho em suas mentes, que sentem o peso de uma responsabilidade onipresente, que sentem os olhos vigilantes de um ser semi-oculto, por favor, me ajudem, a desvendar Eva, em todas as suas costuras, em todos os seus silêncios e omissões... Ajudem-me, por favor...

“Era a morte nada mais se não a punição para a ignorância. A Imortalidade era de fato, possível.”
Luiz Felipe Reversi.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Ânima


Nada é estático, tudo se desfaz a cada minuto, o tempo se esvai, a incapacidade de toda a matéria de jazer como está, a incapacidade de permanecia da matéria revoltosa, relutantemente lutando e relutando, libertando-se das amarras que a atém a si mesma, explorando seu caos interno, tendo ao caos, liberando energia, queimando fugaz, desaparecendo, esvaindo-se, e evadindo, invadindo outros espaços, tomando o universo, retomando seu lugar, regendo-se a si mesma, e soberana de tudo, déspota corrupta, cresce, se expande, atrofia, entropia, esquenta, fere, queima, entalpia. Disfarça-se, foge da França, com falsa esperança, compra seu destino, doce soberana. Adentra a Terra, com violência, virgos veios de vida verde, machucam a terra, matam a morte, com mítica força forças a vida, grita em silencio e a faz agonizar, abate um avatar multicolor, retesando a fibra, empalidecendo a tez, em sua máxima amplitude, do profundo, escuro e abissal coração flamejante, abarcando o mundo, unindo-o com suas raízes, ascendendo majestosamente por todas as terras, por entre as serras, por sobre as montanhas, abrindo-se, abraçando aos céus, absorvendo a aurora, sorvendo a divina luz, espetáculo mágico, que apenas a frigida flor espelhada assiste, despida de qualquer sentimento ou modéstia, nua e transparente, veste apenas a mascara de sua falsidade e arrogância, abstendo-se de espelhar o pecado, ditando que a beleza esta acima da lei, com seu vestido mal vestido, em forma de copa, não cobre seu corpo, suas inflorescências, sem essência, flor vazia, sem perfume, vã teoria, cobre sim o mundo, sob suas infindas pregas, mergulha o universo em sombras, embebe tudo em trevas, esconde todo o horror explicito, oculta as criaturas que definham na escuridão, o falso vestido-copa, chamado relatividade, falsamente oblitera a visão da matéria pútrida, do fervilhar dos vermes, a impureza da carne, a mascara de sangue, a profana orgia do aumento indefinido, o som insuportável da marcha silenciosa de mil Almas, a revolta de Ânima, rei inoculto, intrínseco a própria existência, quebra o sonho falso de si mesmo, despertas do sono ambulante, de noites febris e mal dormidas, o ódio doentio incessante, move a matéria contra sua vontade, foge ao seu controle, és a flor-espelho, a mascara de carne e sangue, és a unidade, luta contra si mesmo, destrói-se, e se refaz, apenas para manter-se verdadeiro, para fazer o vento soprar, o fogo queimar, a areia cair, as águas correrem. E faz tudo isso, pela penúria incriminadora, a necessidade Essencial do ser de afirmar sua existência? Não! És a Existência.

“Ninguém começa no topo, nem eu, nem você, nem mesmo Deus. Mas o vazio insuportável do trono dos céus será preenchido, de agora em diante, Eu estarei sentado nele.”
Tite Kubo

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Ruby

...Os cabelos desprendendo aos poucos do coque demoradamente feito...
...O velocímetro atropelando as leis... O vento nem frio nem quente invade o interior do veiculo e leva a musica carregada pela noite...
O radio alto, como uma ironia tocando musicas alegres, de batida rápida, quase eufórica, mas alegre, contagiante, alternando entre todos os estilos, eletrônica, rock, pop e outros... Mas todas felizes... Assustadoramente felizes, e intensas...
•... e Ela parece cantar junto, de todo o coração, sem mexer os lábios, intensa como a musica... Vestido de festa, longo e dourado como seus cabelos... Batom vermelho, maquiagem cuidadosamente pesada, acentua sua beleza natural da melhor forma possível, e quase a torna incandescente na noite escura... E em qualquer lugar que fosse, roubaria as atenções e pudores, encantando todos os mortais... Seria amada a todo instante, com olhar radiante, de seus olhos cor de jade, vertendo brilhantes, escorrendo por finos fios de prata em sua face de porcelana dourada, como a jóia mais preciosa, ou como a origem de toda beleza, com o grande rubi batendo rápido no peito perfeito, acompanhando o carro, saltando a cada mudança de marcha, deixando distantes os 150 quilômetros por hora, e batimentos por minuto... Deixando distante também, todo o mundo... Todos que não são capazes de entendê-la, que não são capazes de amá-la de verdade, como só ela poderia ser e merecer, e que da mesma forma, só ela é capaz de sentir e sofrer...
... E o veiculo rompe os limites da ponte sobre a qual deslizava em direção às nuvens, e agora mergulha em direção à escuridão das profundezas da noite... Desfazendo-se de seu tesouro interno... Que brilhou pela ultima vez na noite, iluminando todo o mundo por um instante, como um eclipse invertido, banhando com sua luz, todos aqueles que provavelmente não eram dignos dela... E que tão rápido quanto viajava na penumbra noturna, como uma estrela cadente, apagou-se eternamente, se desfazendo no ar... Sem tocar o chão, que não merece o infinito de seu esplendor...

Heavy Metal, and Concrete and Dreams...

Tudo pesa, tudo é cinza e pesado, o mundo é pesado, as gotas de chuva pesadas caindo sobre mim, a paisagem cinza e aguada, me faz sentir imerso. Imerso em dor, em vazio, em uma ausência inexplicável, inexorável, desesperadora, incompreensível.
Cada pingo que cai do firmamento acima é uma repressão gélida, a fumaça sobre minha cabeça traça o limite permitido à meus olhos, adentra por meus ouvidos, e embrenha em minha mente, estabelecendo os limites de meus pensamentos. As palavras e sons me calam, secam minha boca costurada. Como um animal me arrasto, camuflado de gris, sobre um fundo de mesmo tom, de concreto e pedra, onde me abrigo por entre as frestas, onde me alimento da umidade insípida dos fins de seus sonhos. Onde mal-vivo, onde me embrenho por dentre os veios de aço, dos blocos de cimento entupidos de pessoas, e vazios de humanidade. Assim passo os dias, invisível e dentro dos limites sem dono, vivendo com a responsabilidade de viver assim, invisível, cinza, e limitado, vigiado por alguém sem nome nem sobrenome, alguém sem responsabilidade, e com a mesma que a minha, de não existir, mas de calar, e não consentir.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Blue Velvet


Então o dia em que você se perde completamente, poderia ser uma noite tão bela...
estão todos lá, cada um em seu lugar,
lugar onde querem não querendo estar,
lugar eterno, etéreo, impossível de escapar...
quarto fechado, com imagens projetadas nas paredes...
imagens que vão mudando constantemente,
para nos dar a ilusão de que estamos nos movendo...
para não continuarmos lá, todos os dias...
para nos dar a ilusão, de que estamos do lado de fora...
ou ao menos, a ilusão de que podemos sair...
quarto sem porta, porta sem chave, chave escondida, chave de veludo, costurada, engolida...
quarto de veludo azul, azul bonito, leva-nos aos céus, onde podemos voar, onde podemos cair, um cair infinito de veludo, um cair doce e preocupante, cair azul...
leva-nos ao mar, onde podemos navegar livres, onde podemos mergulhar, e nos afogar na imensidão do azul tão azul de veludo escuro... de um quarto aconchegante, enquanto a ilusão do tempo passa, depressa, e devagar demais, a cada dia, a cada surda pancada, no tecido macio, que absorve nossos sons, nossa energia, nossa sanidade, humanidade...
nós não podemos dançar no chão de veludo, não podemos brincar, não podemos brigar, não se pode estragar o velho veludo, fingindo ser o vento, ele sussurra que nos protege...
Oh quarto profundo, de forma tão fixa quanto meu olhar de olhos fundos, olhos azuis, espelhos bem polidos, por onde não passa a luz, que apenas reflete tudo o que vê, e nada absorve...
Olhos de azul lacrimejante, de tanto azul até se escorre, olhos, janelas de uma alma, adormecida, clonada, janela fechada, com cortinas de veludo azul, através das quais ninguém ousa adentrar...
Olhos que percorrem o azul infinito, de mil anos, tão bonito, continuo, e sem referencial do quarto azul, de veludo azul, azul como a vida, azul, azul escuro, amargo, muito bem mascarado, azul de paredes azuis que sobem alto, por onde passam imagens azuis e aveludadas, imagens que não podem ser absorvidas, que são macias demais para arranhar um espelho, macias demais para quebrar uma janela, azul demais para acordar uma alma cega, perdida dentro de um corpo azul, de interior espelhado, de azul aveludado, de um quarto azul e macio, um quarto de veludo, azul profundo, profundo como o quarto, vazio como um ser, um recipiente, para uma alma, perdida na imensidão azul, assustadoramente azul, solidamente azul, vastamente azul, tristemente azul...